quarta-feira, 11 de julho de 2012

Com Licença de Vocês - 03/08/2002


         Não é novidade para ninguém que a amizade é uma das melhores coisas da vida. E eu tenho a felicidade de ter bons amigos. Márcio, Flaviano, Guilherme, José Roberto e uma infinidade de amigas do sexo oposto, mas que não vou divulgar por motivos conjugais (brincadeirinha, Baby).
         Apesar de ter iniciado esta crônica falando de amigos, não é propriamente sobre eles que quero escrever hoje. Mas esses amigos citados, além de outras importâncias em minha vida, são leitores dessas crônicas falhadas e sempre fazem algumas observações legais sobre elas. São palavras de incentivo, de entendimento, de correção, às vezes. É sensível como eles conseguem captar o sentimento com que escrevo, às vezes, lírico, às vezes desanimado ou triste. É fascinante o poder das palavras.
         Bom, o lance é que eu li uns escritos de um publicitário famoso, Carlito Maia e me senti um pouco amigo, um pouco cúmplice dele pelo que escreveu, mesmo sem conhecê-lo. Vou tomar a liberdade de transcrever a crônica dele. É um texto que eu gostaria de ter escrito. E com a licença de vocês, quero transcrever para esse espaço. 
                                                               
Uma vez PT, sempre PT
         Ser petista é ter uma paixão definitiva. É padecer no paraíso toda a vida e mais nove meses. Se saio do PT, que outro partido poderia ser meu? Há tantos! Você luta uma lata na rua e saem dez de baixo. "Partidos" com donos. (Deviam enquadrar essa gente por formação de quadrilhas.) Cegos seguindo a seus cães. Pior ainda: cães indo atrás de seus cegos. Há mais outros partidos... Sem comentários. Nada representam nem significam para mim.
         O PT primeiro e único, não: nele só há voluntários, gente firme, decidida, apaixonada, que sabe das coisas. Que nada quer dos outros, mas exige o que é seu. Quer dizer, então, que o PT chegou à perfeição? É "menas" verdade, pessoal. O PT é composto por seres humanos, com todos os defeitos e virtudes: xiitas e xaatos, xiiques e xuucros, xaaropes e xeeretas. Mas todos têm a garantia de poder tirar suas cismas numa boa, democraticamente ‑ nos Encontros do Partido dos Trabalhadores. Onde são acertados os ponteiros, corrigidos os rumos. O PT dá trabalho, se dá! Mas, nele, ninguém é melhor do que ninguém. Nos outros "partidos" há líderes (como é sabido, líderes dão as costas aos liderados, eles na frente, o rebanho atrás). No PT não: só temos companheiros, irmãos de fé. Lutando lado‑a‑lado, ombro‑a‑ombro. Sem medo de ser feliz. E o nosso companheiro n° 1, Lula, inspirador e fundador do partido (que não é do Lula, ele é que é do PT), é quem afirma: nos Encontros do PT ‑ é proibido proibir. É lá que, cada um, bota a boca no trombone, dizendo o que sente e pensa do partido (aliás, a primeira novidade da política tupiniquim, desde 1500).
          E é isso mesmo que acontece. Porque o PT há de ser, sempre, o reflexo da vontade do conjunto dos seus militantes, essa brava gente. E dos simpatizantes, como eu.
          PT, utopia ao alcance do meu voto ‑ eu te amo!
         O petista é assim: em cada cabeça uma sentença. Não há, nem poderia haver num partido de gente consciente, lúcida, um pensamento monolítico, hegemônico, tipo "crê ou morre". Existem, sim, tendências, pretendências e desistências no interior do partido, abrigadas sob o generoso guarda‑chuva vermelho e branco.
          Democracia é isso aí, manos: "arte da opção entre o desagradável e o desastroso". Desagradável (um pouco) é o democratismo ‑ excesso de reuniões, discussões cansativas e repetitivas, todos os fins de semana, um pé no saco. Desastroso (demais) é o fascismo ‑ imposição de idéias de cima para baixo ‑, pois eu prefiro perder com as bases a vencer sem elas. Não admito a ditadura de um sobre todos, nem a de todos sobre o um. Vivo livre e solitário, como uma árvore, porém solidário, como uma floresta. E para mim não há nada mais moderno, mais socialista ‑ nem mais livre ‑ do que uma boa democracia.
          Para que a democracia plena seja alcançada, contudo, deve‑se respeitar a opinião de cada um sobre o que irá afetar a vida de todos. "Nenhuma corrente é mais forte do que seu elo mais fraco. " Tudo o que precisamos é um dos outros. Venha ser um dos seus. Teje livre!
          Carlito Maia, petista até morrer.        
Texto escrito em 1998. Carlito morreu no dia 22 de Junho aos 78 anos.

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