segunda-feira, 16 de julho de 2012

Do que se trata? ... Clique para acessar o Índice ...

          Se trata de memórias, de lembranças, de impressões, de sentimentos... trata-se apenas de um ser humano que canta (e escreve) somente o que não pode mais se calar. Em outras palavras, é muito romântico (Caetano Veloso).

          Esse blog destina-se a republicar crônicas que escrevi na extinta página www.itaudeminas.com, a primeira homepage que Itaú teve, ainda em 2001.
As crônicas foram escritas de setembro de 2001 a setembro de 2003 e abordaram temas da época e divagações minhas, recuperadas graças ao backup feito pelo webmaster e idealizador da homepage, Flaviano Honório.

          Hoje, as reapresento com algumas correções de digitação e acrescidas de fotografias tiradas por mim de 2011 em diante (copyright liberados desde que citada a fonte - copyleft), e algumas com observações e atualizações. As imagens dialogam com os textos. Ou não. Algumas estão lá só por causarem o espanto da beleza aos olhos.

          O índice indicará o título original e a data em que a crônica foi publicada. Meus textos favoritos receberão indicação de recomendação.

É isso...

INDICE
Desejos - 20/05/2003 RECOMENDADA 
Congresso Internacional do Medo II - 24/12/2001
Um Título a Ser Evitado - 26/10/2001
O Aprender e o Prender - 13/10/2001 RECOMENDADA
De Santas e Guerras - 06/10/2001
É a modernidade, uai! - 29/09/2001

Take it easy. I'm only bleeding - inédita


"I. I who have nothing" - Joe Cocker

              
Eu. Eu que não tenho nada, ouso te querer. Eu que nada posso oferecer, ouso querer tudo. Pelo menos tudo que possa preencher minha vida: você. Sex, drugs and rock'n'roll mineiramente. Meu rock é mpb, my drugs is alchool, e sexo é aquela complicação toda. Sobra pouca coisa para oferecer. Eu, que tão pouco tenho, tanto quero...
               Eu, que só tenho esses braços, longos, que só podem envolver, circular uma cintura, puxar um alguém para mais perto, alguém que aceite um aconchego. Braços que não sabem ficar junto ao corpo, por isso vivem gesticulando, acompanhando a fala, se agitando, como a tentar aumentar a massa corporal, ocupar mais espaço no mundo, quem sabe ser notado por seus olhos, ocupar espaços em você...
               Eu, que tenho apenas esses dedos compridos, indecisos, mãos vazias, carregadas de eletricidade, 440 volts, faíscas saindo pelas extremidades, cargas diferentes se procurando, se atraindo, se encontrando...choques de altas potências ao quadrado elevadas.
               Eu, que só tenho esses cabelos enormes a gritar "eu sou diferente, eu não sou todo mundo, sou outros trezentos, outros trezentos e cincoenta". Eu e meus cabelos longos embranquecendo, mas ainda gritando que valeu o preço de cada fio que perdeu a cor. Gritando que não há o que arrepender de tudo que foi feito, mas gritando também que é preciso cuidar do hoje para que cada minuto atual também valha a pena.
               Eu e meus ouvidos cansados e moucos. Eu e tudo que já ouvi e ainda está guardado em meu cérebro. Eu e minhas 11.783 músicas para serem ouvidas, das quais ouço umas duzentas. Eu e minha voz variável, ora grave, ora taquara-rachada, cantando cerca de cinquenta músicas velhas que falam fundo em minha alma e que entregam meus segredos. Eu e minha memória vacilante, esquecendo letras de músicas, cifras, sons,mas não esquecendo sentimentos e emoções. Eu e tudo que tenho para dizer. Eu procurando ouvidos abertos para os sons que vêm do fundo de um ser humano. Eu e minha meia dúzia de poesias decoradas, que foram escritas por Vinícius ou Drummond, mas que quando as falo, se tornam minhas, transmitem sentimentos meus, direcionados para quem as ouve, mesmo que os sons só atinjam ouvidos vazios, que não ouviriam nem a mim nem a Vinícius. Eu, metade capitão-do-mato e metade escravo fugido.
               Eu e meu peito vazio com letreiro em neon intermitente "Há Vagas". Eu e meu sangue pulsando nas veias, se perguntando se há um destino, um recompensa, uma luz no fim do túnel. Eu, uma locomotiva desgovernada que não sai dos trilhos, mas não para em sua viagem, à procura de uma estação de repouso, de bonança ( puta palavra antiga, mas que é o anseio de todos nós - e ainda acontece de ouvir Edu Lobo cantar nesse exato momento em que escrevo : "Adeus, vou pra não voltar, e onde quer que eu vá, sei que vou sozinho..."). Eu, que ouso ter esperanças de que a vida possa ser boa. Talvez porque ela tenha sido assim desde há muito tempo e porque eu acredite que a vida só vale a pena se a gente for feliz ( lembre-se sempre disso, minha filha Clarita) . O diabo é que a gente teima em só ser feliz dentro de determinadas circunstâncias. Por isso essa militância política, por isso esse conformismo com resultados tão parcos (Perdão. Eles não sabem o que fazem!) Por isso,essa teimosia em querer que outras pessoas sejam felizes com a gente, sem perceber que há pessoas que optam por serem infelizes a qualquer custo, enquanto outras podem ter a chave de sua felicidade. Enquanto outras podem abrir as portas de um Admirável Mundo Novo. Eu e minhas janelas abertas, minhas portas fechados, Knockin', Knockin',Knockin' on heaven's doors. Eu e minhas plantas na varanda, cultivando verdes esperanças, alimentando beija-flores e pendurando mensageiros-dos-ventos, lançando mensagens, olhares, toques. Eu, náufrago solitário em meio à multidão, mandando recados e sem percepção para receber respostas. Eu, emissor sem receptor, me achando estranho, deslocado no tempo e no espaço (pertenço a esse mundo?). Eu e essa vontade de falar, sempre achando que ninguém quer me ouvir. Eu e minhas histórias antigas, meus escritos cifrados, minhas cartas não enviadas, meus bilhetes não recebidos. Eu e essa minha dificuldade de falar, esse desejo que me entendam telepaticamente, ou pelo que canto, ou pelo que vejo, ou pelo que escrevo enigmaticamente, ou pelo que calo, ou pelo que mostro, ou pelo que oculto. Eu e esse outro eu que habita em mim, sem nome, sem rosto e sem história. Esse outro que também sou eu e a quem delego a prerrogativa do irrealizável. Eu que não me entendo e que não entendo o mundo que me cerca, eu que nada sei da arte, mas que deliro com quadros loucos de Dali e me vejo retratado nas Tentações de Santo Antão, nos Sonhos, em Leda e o Cisne. Eu que viajo na voz rouca de Joe Cocker, na voz doce de Adriana Calcanhoto, na voz chocha de Chico Buarque. Eu que queria embalar sonhos de Leda quando a sorte soltar um cisne na noite. Eu que sonho com a noite e sei ver as estrelas, ver a lua, aguardar o pôr-do-sol com nuvens flamejantes como meu desejo. Eu que desejo incendiar o mundo e queimar você sussurrando: "Baby, you light up my fire". Eu, lenha de fogueira, tronco úmido que queima sob protestos de fumaça, olhos ardentes, odores diferentes, essências de madeira e de suor. Marcas pessoais, impressões transferíveis em outras peles. Outras faces, outros perfumes, outros sabores (que gosto desconhecido é esse que advinho na tua boca???).
               Eu, que calo quando devo falar. Eu que não sei decifrar a linguagem do olhar. Eu que nada tenho. Que tenho apenas essa sina de quere bem. Eu que sei apenas carregar uma criança, brincar com ela por me sentir também criança. Eu, que nem sei fazer mágicas, apenas um ou outro milagrezinho. Eu, que não sei cozinhar, sei apenas comprar vinhos e taças e frutas e doces. Eu que só tenho meia dúzia de espelhos que só sabem refletir a verdade. Eu que nem tenho o dom providencial da mentira. Eu que tenho lenços e não tenho ternos, que prefiro a forca à gravata. Eu, que tenho o sono, o cansaço, a preguiça, a coragem de adiar até depois do limite. Eu. Que tenho coleções de leis para serem desrespeitadas. Que tenho como lei orgânica o orgasmo, o organismo, o coração. Que tenho como constituição o coração, como dez mandamentos, o coração.
               Eu, que nada tenho, tenho um coração. Inda se fossem sete, mas só tenho um coração e isso, é só o que eu tenho.
"Baby, all I have is this" (Rod Stewart) 

O Ato de Escrever - 27/09/2003


Dedicado à Deisilane, que tem muito
o que dizer e nem sempre o consegue.
 

(Reflexões sobre o ato de escrever suscitadas por uma aluna em sala de aula com a frase "Se eu pudesse voar...")

                         Escrever é bom. Mesmo que tenhamos dificuldades, escrever nos alivia a alma.
                         Quando inventamos uma história, liberamos nossa mente para expressarmos nossos desejos e até nossos medos. Diante do papel em branco, somos livres para inventar, mentir, fofocar, aterrorizar, usar a violência e o crime. Isso se chama criatividade, essa capacidade de sairmos de nossa vida comum, do jeito tradicional de fazer as coisas e ousar criar outra vida, para nós mesmos ou para outros. E podemos fazer isso sem medo e sem culpa porque não é para valer. É apenas ficção.
                          Dizem que ler um livro é viajar em sua história. Escrever é mil vezes melhor, porque além de viajarmos, podemos escolher o roteiro e nossas companhias.
                          A liberdade de escrever se compara à liberdade de pensar, porém é bem melhor que esta. Quando pensamos, o conhecimento é só nosso. Quando escrevemos, nossa criação passa a pertencer à humanidade, que pode ter acesso a nosso texto, conhecer nossas idéias e tem a possibilidade de viver conosco as aventuras traçadas por nossas letras. Nos tornamos  provedores de um mundo de possibilidades que oferecemos a quem nos lê.
                           Escrever é um ato de coragem: nos expor em palavras traçadas em folhas de papel. É um ato de libertação: deixarmos de ser simples criaturas para sermos criadores. E para nossos personagens somos deuses controlando seus destinos. Escrever é um ato de rebeldia: criar um mundo alternativo, um mundo diferente desse em que vivemos e que julgamos não ser bom. Aí sacamos do lápis e do caderno e revolucionariamente inventamos outro mundo melhor. Ou pior.
                            Agora, nesse momento em que escrevo, não sou mais uma pessoa comum. Sou onipotente - tudo posso. E se alguém duvidar, que entre no meu mundo de vocábulos e me desafie! Morte cruel sofrerá sob minhas palavras. Porque do meu texto sou senhor absoluto e as palavras impotentes não se rebelam. Apenas me obedecem. Eu, Imperador do Léxico e da Semântica.
                             O destino não existe para o escritor. Apenas sua vontade e sua lei. Não existe mortalidade. Apenas o registro eterno de sua obra que pode ultrapassar as noções comuns e vencer as limitações, porque num texto, apenas o autor manda.
                             Quem escreve é comandante supremo do mundo das palavras, das idéias e dos sentidos.


Do Que É Feito Um Itauense? - 13/09/2003

                 Foi nos anos setenta que, vivendo minha adolescência e juventude, descobri o mundo real e as coisas que importavam. Até 1975, morava em outra cidade, mas vinha sempre em Itaú, visitar a família de minha mãe. Passei um ano morando em Itaú e depois fui estudar em Franca, voltando quase todo final de semana para Itaú. Vem dessa época a minha fascinação por essa cidade e seus moradores e foi esse o motivo que me trouxe de volta em 1986, após morar seis anos em São Paulo. Vim para cá para fundar minha casa, criar meus filhos e viver na cidade de meus sonhos.
                 Identifico em nosso povo um sentimento de carinho e amor pela cidade, que nem sempre é expressado, mas fica vivo dentro do peito, e em algumas situações se manifesta. Principalmente na distância, o itauense sente um comichão, uma inquietação que não sabe explicar: é o banzo, a saudade da terra. São nossos umbigos enterrados nesse chão a nos chamar...

                 Desde que convivo com essa cidade, me pego a tentar entender as pessoas daqui. Há muito tempo noto uma diferença, um jeito próprio, parecido com qualquer cidadezinha do interior e ao mesmo tempo, moderno. Muito mineira em várias coisas e meio paulista em outras. Inserida em todos os movimentos que a modernidade traz e ao mesmo tempo criando maneirismos próprios, gírias e tendências só encontradas aqui. O itauense é um mosaico que falta ainda explicar. Afinal, do que é feito um itauense?
                 Acho que posso me arriscar a compor uma receita. Vamos aos ingredientes:

                 Uma boa dose de garra e teimosia na conquista de objetivos, herança do trabalho de nossos antepassados, de sua saga de arrancar pedras, queimá-las lentamente para obter a cal e vender para os construtores sentindo-se o mais esperto dos negociantes: ganhar dinheiro em troca de pedra queimada.
                 Uma porção de simplicidade devido a nossa origem rural, ecos dos indígenas que habitaram essa região em eras remotas. Nossa ligação com a terra, com o trabalho de plantar e colher gera uma confiança de que tudo dará certo pois a terra não nos abandona.
                 Algumas colheres de hospitalidade, pois o itauense se acostumou a receber pessoas de fora. Primeiro os construtores da fábrica, seus engenheiros e trabalhadores. Depois as famílias das terras alagadas pela Represa de Furnas e até hoje uma leva grande de descendentes de japoneses, italianos, espanhóis e as mais diversas etnias. Trabalhadores braçais e especializados; médicos, dentistas, transportadores. Quando acolhe uma pessoa, na verdade o itauense está retribuindo a boa acolhida que teve em outro tempo.
                 Umas boas pitadas de envolvimento com a política, sem conseguir separar muito bem a Política maiúscula com a politicagem ordinária. Esse envolvimento, proveniente de décadas de luta pela emancipação da cidade, marcou-nos profundamente e até os dias atuais, a paixão política é destaque na caracterização do itauense.
                 É preciso acrescentar também uma dose de comodismo, oriundo do tempo em que a Fábrica de Cimento provia casas, água, eletricidade, futebol, clube, assistência médica e outros benefícios. Curiosamente, me parece que esse comportamento também gerou pessoas generosas, caridosas e preocupadas com o bem estar dos outros.
                 Para temperar, colheradas de religiosidade de um povo marcado por padres e pastores fervorosos e envolvidos com seus rebanhos. Acrescente a gosto um faro comercial das tradicionais famílias de comerciantes, o gosto pela arte e cultura de nossos congadeiros, pintores, músicos, escritores. A garra de nossos esportistas, a saudade de nossas matas sufocadas por eucaliptos, a dureza dos telhados antigos cobertos pelo pó das chaminés,
                 Misture tudo isso e deixe descansar sob o cansaço do trabalho bem feito. Unte com a bondade e sabedoria popular. Deixe exposto ao calor humano de nossa gente e comece a notar as cores surgindo em reflexos de rostos de diversas formas e gerações. O saboroso resultado será um ser humano da mais especial linhagem. Um itauense, principal responsável pela grandeza dessa nossa pequena cidade. Um representante desse povo que faz dessa cidade o melhor lugar do mundo, porque nos acolhe e nos dá espaço para viver e construir, juntos, o sonho de cada um.

Está crônica foi escrita para ser publicada no suplemento especial da Folha da Manhã sobre o 16° aniversário de Itaú.

Ronaldo é funcionário público, professor de Língua Portuguesa e sindicalista. É apaixonado por Itaú e sua gente.

Declaração de Amor - 30/08/2003


Pretensiosamente à moda de Carlos Drummond de Andrade
Um textozinho deslavadamente inspirado em Carlos Drummond de Andrade. O original você pode ver em:
http://www.tanto.com.br/drummond-declaracao.htm

Meu amor...
Minha estrela luzindo na manhã que finda.
Minha nuvem surgente pintada de rosa pelo sol que se levanta.
Minha montanha escura que mantém o ar frio da manhã.
Penugem úmida de orvalho nas plantas de meu jardim.
Meu sono aconchegante em lençóis macios.
Meu cobertor surrado e suficientemente quente.
Canto de galo ecoando ao longe.
É o meu amor esse cheiro de café, o pão sobre a mesa.
Minha cadeira preferida. Meu conforto, meu apoio.
Meu amor, amor meu...
Meu calor do sol no alto céu.
Minha roupa branca.
Meu relógio de pulso,
(destino do meu olhar tantas vezes ao dia).
Meu amor - alegria de meus olhos.
Espelho da minha íris.
Minha cachoeira pessoal.
Minha rocha firme cravada no solo,
Minha pedra escorregadia coberta de lodo.
Meu amor, amor meu amor...
Recheio de meus sonhos.
Meu sonoro canto de sabiá.
Meu Concerto Número Três de Brandemburgo.
Meus Boleros, de Ravel e de Armando Manzanero.
Meu som dolente de viola caipira.
Meu mensageiro-dos-ventos soando na varanda.
Minha alegria e minha tristeza
Meu vaso de flores em cima da mesa
Minha dor, minha risada e minha beleza.
Meu amor, amor amor, amor...
Perfume das rosas de meu jardim
Cheiro de lírio e de jasmim
Odor da terra que a chuva molhou.
Minha Água-de-Cheiro,
Meu primeiro beijo,
Meu último suspiro.
Minhas serras e minhas montanhas
Poço escuro e úmido de minha existência,
Precipício onde me atiro .
Amor, amor-amor-amor-amor...
Meu pôr-do-sol no fim da rua.
Minha lua nova, risca no céu.
Minha estrela cadente, candente de desejos.
Minha cena de cinema que termina com beijo.
Fotografia pendurada na parede
Minha insaciável sede do belo.
Pintura de minha vida, mosaico dos cacos de mim
Caleidoscópio. Luneta mágica
Que o menino que eu fui olhou uma vez e nunca mais esqueceu.

Pela claridade de nossa casa* (para Clara) -16/08/2003


"Vossos filhos não são vossos filhos.
Eles são filhos da ânsia de viver."
Gibran Khalil Gibran

(Canção desesperada para uma partida inevitável. Balada cheia de esperança por novos caminhos que se abrem.)
               Se alguém perguntar por mim, diga que sumi. Diga que saí por aí, pra lá de Marrakesh ou do Hawai. Diz que mudei a conjugação do verbo pra linguagem coloquial. Que sei que a terceira pessoa no imperativo afirmativo é diga, mas que quero falar com a linguagem do povo brasilis, ao qual quero pertencer, das gentes da patriamada que não quer saber de mesóclises e inverte pronomes enclíticos para colocar as pessoas em primeiro plano. Me dá um tempo, vai. Diz que fui por aí, andando por jardins em noites escuras, revirando pedras, vasculhando moitas. Procurando sapos espantados e costurando nomes dentro de suas bocas. Deixando lá dentro deles enquanto secam, seu nome preso. Você não vai embora. Costurei seu nome na boca do sapo. Empunhei a carranca, fiz figa, evoquei meus orixás, eparrei, minha mãe! Rezei. Circulei a casa com sal grosso. Pus pentagramas em cada porta.. Você não sai daqui... Ou então, vai, porque este é o seu caminho. E sua prisão é só dentro do meu coração e minha lembrança de você, além de todos os minutos, será quando o bem-te-vi cantar pela manhã em sua janela, insistindo em te acordar. Insistindo em gritar: meu bem, te vi, te vi, te quero ver. Menina acordada a bico de pássaro. Talvez um dia eu corte a árvore para espantar os bem-te-vis. Talvez eu os despeça do serviço contratado de despertadores. Talvez eu os mate a tiros, para evitar que eles passem a gritar para outros bens.
               Se alguém perguntar por mim, diz que saí pela cidade. Vesti meu carro, abotoei o cinto e me ajustei a ele. Conectei-me à ignição. Coração sincronizado ao motor, respiração ao compasso do escapamento, homem-máquina obedecendo sinais, de vez em quando cometendo pequenas infração ao Código Nacional de Trânsito. O ser humano é transitório. Ligo os faróis, olhos varrendo as ruas, buscando sombras e imagens, um andar, uns cabelos, uma voz que não aparecem. Eu estou nas ruas. Tome cuidado. Ande nas calçadas, atravesse na faixa. Eu sou a máquina pensante, angustiada por ser máquina. Mistura de Frankstein, Blade Runner e Matrix. O óleo circulando pelas engrenagens, diminuindo o atrito, mas o que escorre lentamente pela junta defeituosa do cárter é sangue. Let it bleed.
               Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, como um adolescente ao som do Creed e seu inglês mal pronunciado, rosnado entre os dentes, caipira. My Sacrifice, Inside Us All, With Arms Wide Open, One Last Breath (I'm six feet from the edge - à beira do abismo). Será que alguém além de mim sente esse fascínio por essas músicas angustiosas? Será que os jovens sentem a angústia dessas músicas ou ela está em mim? Nos ecos do Creed escuto Kid Abelha "As entradas no meu rosto / e os meus cabelos brancos / aparecem a cada ano/ no final do mês de Agosto", bela voz tem a Paula Toller. (Everything is gonna be allright. Close your eyes, close your eyes and feel it. I'm riding and riding across the streets, gardens and minds, doing what heads don't think, but hearts really want.)
               Tem uma moça que é dona do meu bem querer. O som de sua voz apazigua meu coração e sua risada (ah, a sua risada...) é única, e aberta, e alta, e sonora como umas palavras usadas por Guimarães Rosa, como uns crepúsculos pros lados da Lagoa, como os abacateiros de minha infância, como o canto do patativa de meu pai, que gostava de competir com o som do rádio, e quase sempre, ganhava. É uma risada que contagia, atravessa a sala, sai pelas portas dos quartos, preenche a varanda. E faz ter esperanças na vida, e faz acreditar que ela é só uma moça sedenta de vida, espremida entre a vida real e sua bondade. É uma moça que conhece suas potencialidades e não tem medo do mundo. Mas de vez em quando ela encontra seus pais com os corações apertados porque eles já ouviram Cartola dizer que o mundo é um moinho. E eles aprenderam tristemente a desconfiar do mundo nos mais de vinte anos em que deixaram de ser crianças, apesar de ainda acreditarem na vida.
               Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí. Mas se for alguém de quem eu gosto, diga que estarei onde sempre estive, rocha sólida, moirão de esteio, braços abertos e sorriso de acolhida.
* O título é emprestado de uma música de Beto Guedes.

sábado, 14 de julho de 2012

Amigos Para Sempre - 14/08/2003

(Você já notou como nem sempre vemos as coisas boas ao nosso redor?)
               As coisas estão aí do nosso lado e não percebemos. Com nossa atenção voltada para a mídia, para os grandes centros, para o que é motivo de escândalo em manchetes de jornais ou para o que nos amortece nos Fantásticos rotineiros das noites dominicais, deixamos de ver que o show da vida acontece aqui, pertinho da gente. Pioneirismo, então, não podemos crer que venha de uma cidade pequena como Itaú. É claro que de vez em quando nos deparamos com alguma iniciativa, legal, interessante, mas logo voltamos nossas atenções para o "de fora", não acreditando que o santo de casa faça milagre, e que aquela boa idéia dure muito tempo.
               Estou falando essas coisas porque nesse mês de agosto, considerado mês das catástrofes e do azar, o Grupo Amigos Para Sempre de Itaú de Minas completa dez anos de existência. Eu me lembro de ouvir falar de vez em quando desse grupo, às vezes até com uma certa dose de preconceito. Recentemente, num seminário sobre o Programa Fome Zero, convidamos esse grupo para fazer uma apresentação teatral e eu já comecei a me surpreender com eles.  Nesses dias, estive em um outro evento de nível regional com renomados profissionais da área onde a unanimidade era a louvação da existência do grupo. O evento foi o Fórum Regional de Saúde Mental e o Amigos Para Sempre é um grupo para portadores de sofrimento mental. Funciona como um grupo de terapia onde  os participantes se ajudam e superam suas dificuldades. Realizam atividades de teatro, dança e artesanato. Promovem reuniões e eventos como bingos para arrecadação de fundos e contam com vários voluntários auxiliando seu funcionamento. Sou leigo no assunto e não vou me aventurar a tecer considerações sobre métodos, mas posso dizer que pela seriedade do Fórum e pelos abundantes elogios ao grupo feitos pelos psicólogos, professores e doutores presentes, acredito ser uma experiência de sucesso. E louve-se que não é momentânea, já que conta com dez anos de funcionamento. Posso não saber nada de teorias, mas não posso deixar de perceber o rosto das pessoas, janelas abertas das almas. E os rostos dos integrantes do Grupo mostraram-me felicidade, disposição. Pareciam pessoas libertadas, corajosas. Com a mania de nossa sociedade de rotular as pessoas, de intolerância com os diferentes e com o histórico do tratamento mental no mundo, não posso imaginar onde estariam essas pessoas sem esse grupo, mas posso dizer que, com certeza, o mundo é mais feliz com  a existência do Amigos Para Sempre. E todos nós, membros ou não do grupo, um pouco mais tranqüilos, um poucos menos sofridos, um pouco mais justos.  Ciente de cometer injustiças, vou citar aqui algumas pessoas, não pela importância no grupo, mas pelas impressões que deixaram em mim: Júnior, o Dr. Júnior, psicólogo idealizador do grupo; pela perseverança, afinal são dez anos trabalhando, até onde eu possa notar, sem um reconhecimento mais amplo. Pelo carinho com que é tratado, só pode ser gente boa, pela humildade e pela vontade de não-aparecer e, sobretudo pela capacidade de chorar de emoção com o grupo. Outra pessoa super dedicada é Dona Antônia, e me fez bem reencontrá-la. Boas recordações eu trago dela no início dos anos noventa, quando éramos super animados com o PT e eu e o Tiãozinho Presley, filho dela, vivíamos dando trabalho para ela quando saíamos pelas madrugadas pichando muros, colando cartazes e distribuindo panfletos. Com satisfação e muitas lembranças entrei na casa dela passando pelas roseiras e bananeiras (as mesmas de doze anos atrás?), encontrei a casa do mesmo jeito, Dona Antônia com a mesma disposição para conversar, querendo fazer café e bolinhos. Lembrei o tempo que fazíamos uma cola de polvilho, limão e soda cáustica para os cartazes pelas noites antigas. Dona Raquel, pela disposição e pela capacidade de se transformar, de criar personagens e de transmitir alegria. Maria Helena, de Campinas, pelas palavras sábias, pela beleza, pela naturalidade com que se apresenta, pela simpatia extrema e por cantar comigo algumas velhas canções. Gostaria de encontrá-la novamente. E por fim, Luciana, de Varginha,  por me dar atenção e por uma frase dita: "Se não posso mover os céus, moverei os infernos." Que queres? Quero tudo e algo mais, que ainda não sei o que é, mas que tenho a certeza de que quero!

Insinuações - 31/07/2003


               Quem tiver um pouco de tempo, um índice de sanidade não muito maior do que o de loucura, e um bocado de paixão, dê uma pesquisada em  Clarah Averbuck. Ela tem uns textos espalhados pela net e um blog em http://brazileirapreta.blogspot.com/ . Meu primo Mauro vai gostar, se é que ainda não conhece. Mesmo porque além de ter talento, ela é fã de John Fante, Charles Bukowski e Paulo Leminski. Gente de peso


Eu quero, eu quero, eu quero...
Na revoada das horas recebo a visita das insinuações. Procuro você querendo que seja como eu. Procuro uma  metade querendo que seja diferente de mim. Procuro alguém que tenha pontes, ligações, curtos circuitos. Eletricidade relampeando na pele. Toque/choque. Alguém que descarregue e recarregue energia em toques de pele, mãos e bocas. Que me carregue no peito e que eu carregue nos braços. Que eu leve pra rede, pro sofá, pro tapete, pra cama. Que se deite comigo. Que durma comigo e que acorde de repente, no meio da noite sem saber se sonhou comigo... se disse meu nome... ou se escutou o seu...que não saiba de onde vem o despertar, mas que achegue seu corpo no meu, a pele quente, os cabelos soltos, as pernas sobrepostas, dedos a se entrelaçar. Sensações eletrizantes. Poros escancarados, o olfato ávido pelo cheiro do seu corpo, de seu pescoço, de sua nuca.
               O amor não cabe num corpo de homem. Nem em dois corpos. Multiplica-se, ocupa espaços. O amor se expande, explode em mil galáxias. Cintila na Via Láctea (leite derramado na origem da vida). E quer mais. Quer o sono tranqüilo e o acordar com café. E o gosto do beijo com cheiro de café, melhor, muito melhor do que com gosto de pasta de dente. E querer só ficar ali. Comer um pedaço de pão na sombra de seus olhos, ao som da amanhã que desperta e à luz do sol que nos espreita...
               Ouvir as palavras do dia a dia, mas de vez em quando atender ao silêncio e calar todos os assuntos para conversar na linguagem das mãos que se tocam, de olhos que mergulham nas profundidades onde se escondem as pepitas das emoções. Brilho de pedras refletidas em grutas escuras que afloram luzes irradiadas em olhos castanhos.
               Jornais espalhados, livros espalhados, revistas abertas, discos dispersos para um enredo conhecido. A história das paixões contada e cantada desde sempre e até o infinito, com diversos começos, meios e fins sempre temidos, sempre adiados, para alguns, congelados na eternidade. Ainda que incompletos, ainda que imperfeitos, nossa sonho constante: o amor. Só fala de amor com sentimento quem não o tem. Mas quem está satisfeito e saciado está morto. E mesmo o maior dos amores quer mais. Ou não é amor: é costume. Ser mais e receber mais. Por isso a ânsia e a busca do infinito, essa a causas da satisfação além da última saciedade. (Like a Rolling Stone: I Can't Get No Satisfaction But I Try, But I Try.)
 

Companheiros 18/07/2003


                (Algumas idéias sobre a cultura.)
Depois de algum tempo de promessa, meu amigo Flaviano publicou o novo layout do site. E de quebra agregou novos colaboradores. Bem vindos, novos e velhos companheiros (em todas as acepções das palavras). Tenho lido-os todos e gostado bastante. Continuem firmes, divulguem seus pensamentos e, de quebra, ajudem a suprir algumas de minhas falhas.
                 Esse é um espaço privilegiado e democrático. Aqui participa-se. Aqui entramos em contato. Aqui descobri novas formas de comunicação e novos amigos. José Roberto é um deles. E nesse final de semana me presenteou com algumas jóias. Um desses presentes compartilho com vocês na outra crônica dessa mesma data escrita por ele intitulada "Família, Mercado e Ferramenta de Trabalho". O outro presente é uma fita de vídeo contendo entrevistas fascinantes. Uma mostra o arredio (à televisão) Frei Betto falando de sua vida, sua militância política e religiosa e sua atuação no governo Lula e no Programa Fome Zero. Muito boa de se assistir. Dá até para torcer para que a brasa adormecida da fé incendeie. Talvez. (Falar em fé é complicado: quem pode dizer que acredita ou duvida? Se mesmo quem não tem certezas, tem esperanças? Se mesmo céticos, fazemos planos e utopicamente sonhamos?). Frei Betto, com cara de menino maroto mineiro, não me sai da cabeça como o autor da "Oração do Pássaro":
Senhor,
Tornai-me louco, irremediavelmente louco
Como os poetas sem palavras para aos seus poemas,
As mulheres possuídas pelo amor proibido,
Os suicidas repletos de coragem
Perante o medo de viver,
Os amantes que fazem do corpo a explosão da alma.
(...)
                 Bem, depois do Frei Betto, outra iguaria: uma entrevista com o pessoal do Clube da Esquina, gravada à época em que Márcio Borges havia lançado um livro sobre eles. Puxa vida, entrei em êxtase ao ver tanta história e tanto talento juntos. Lô Borges, Fernando Brant, Márcio Borges, Tavinho Moura, Murilo Antunes, Toninho Horta e Nélson Ângelo. Vejo aquele pessoal envelhecido, cheio de rugas e de cabelos brancos, e repletos de dignidade. Não dá medo de envelhecer quando se envelhece sem renegar raízes, sem abrir mão do que se acredita. Os caras falam o tempo todo de suas histórias, de suas músicas, de suas crenças. Tocam e cantam barbaridade! Dá pra ver a ânsia que têm de cantar junto, de improvisar um arranjo, de harmonizar uma voz diferente.
                 Nesse dia, à noite, comentava com um outro amigo da minha frustração de não ter conseguido formar um grupo assim, de amigos, de gente que se junta para tocar e cantar, pra falar de poesia, pra comentar de cinema, pra se viver um pouco em torno de cultura. E olha que Itaú tem um bocado de gente capacitada para isso. No entanto, ficamos sozinhos, separados, ensimesmados em nosso mundo, reclamando que o mundo está se acabando. O amigo falava também de como isso faz falta para as gerações mais novas, que não têm onde conhecer essa cultura que a TV não mostra.
                 Bastaria um dia, um horário e um local para as pessoas se reunirem e trocarem experiências, trocarem suas habilidades, mostrarem suas preferências. Ler uma poesia, própria ou não; mostrar uma tela ou um desenho. Trocar, viver, conviver. Muito do meu interesse e conhecimento da música nasceu de encontros pelas ruas de Itaú, de serenatas e reuniões em casas de amigos. Artistas precisam apenas de um espaço. Artistas autênticos querem apenas produzir. Os falsos artistas querem aparecer, se destacar, necessitam de produções para mostrarem, para suprirem o que falta em talento. O artista verdadeiro aparece pela sua arte. A cultura verdadeira é que se insere naturalmente. Que não é imposta por processos maciços e massivos. E que por isso, não passa quando passam os modismos.
                 Muitos papos e divagações depois, percebemos que a coisa não está tão difícil. Como em outros setores de nossa cidade, parece que o que está faltando é um projeto político, um direcionamento. Mais ações concretas e menos obras de fachada. De que adianta uma biblioteca sem livros (ou sem atualização) e que fecha durante à noite, ou nas férias quando poderíamos freqüentá-la? Precisamos de espaço e incentivo para seu uso. Acho que pode estar nascendo um projeto para cultura em Itaú. Interessados pelo assunto: unamo-nos!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Família, Mercado e Ferramenta de Trabalho - 18/07/2003 – Por José Roberto de Oliveira


                 Hoje em qualquer lugar do mundo que formos sempre ouviremos isto: vamos consultar o mercado. Quem sabe esta ferramenta vale menos?
                 Agora estou vendo um lar onde o amor é equilibrado pela realidade da honesta dedicação dos seus componentes, cada um afiado na função social que representa neste contexto . Os pais que herdaram sólidas lições dos seus genitores fazem qualquer sacrifício para passá-las para seus filhos, abdicando de qualquer regalia para atingir o seu objetivo ditado por Deus através dos séculos. Estes humores paternos, ungidos por estas energias divinas, impregnam com certeza seus filhos da mesma harmonia e então se formam homens dignos capazes de eternizar estas vibrações sempre na freqüência da bondade e justiça.
                 Mas agora apareceu com uma força globalizada a figura chamada "mercado de trabalho e ferramenta de trabalho". Explicarei:
                 Primeiro vou materializar a família, ou melhor, vou mercalizar a família: um filho quanto custa? Imagine ele ou ela com vinte e quatro anos, um universitário formado; ou um técnico bem formado que domine dois idiomas. Bom, não sou economista, mas nestas ferramentas seguramente foram gastos 600.000R$ no mínimo. Quanto será que o mercado de trabalho oferece por elas? Olha, estourando de 1.000 a 2.000R$ e com muita sorte quando acha trabalho ou quando vai ocupar o lugar de outro que ganhava alguns centavos a mais e que fazia a mesma função. Voltando as idéias econômicas: 600.000R$ no mercado financeiro (outro ramo do mercado e este é terrível) rende 6.000 R$ mensais para ficar girando e explorando pessoas que podem ser nossos filhos, ferramentas porque não, afinal para formá-los fizemos credito educativo é ou não é?! Com este salário oferecido pelo "anjo mercado" eles vão ter que repor estes créditos, durante + ou - 10 anos. Meu Deus assim não vai ter neto, ou melhor, ferramentinhas!!!
                 É o samba do crioulo doido, com certeza! Um cara chamado Raul diria: - Por favor, parem o mundo que eu quero descer! Mas eu acrescentaria:- Desço e observo, por que de fora a gente vê melhor o que está errado. Ah!, só com oração:-
                 MEU DEUS,VÓS QUE SOIS O COORDENADOR DA HARMONIA DO UNIVERSO, POR FAVOR DÊ UMA RENOVADA NA JUSTIÇA, NA HONESTIDADE, NA ÉTICA E PRINCIPALMENTE NO AMOR E AO RESPEITO AO PRÓXIMO.
José Roberto de Oliveira
Itaú de Minas
                 José Roberto é mais um itauense trabalhando em outra cidade, mas que não perdeu suas raízes. É um freqüentador assíduo dessa página e um bom proseador. Seja bem vindo, amigo.

Desejos - 20/05/2003


     Confesso que tenho uma necessidade de escrever.
Então por que escrevo pouco? Não sei. Parece que falta assunto, parece que tenho medo de me expor. No entanto, ao começar, as coisas deslancham, me mostro, me escondo, proponho meus enigmas.
     Apenas comecei a ler um livro de crônicas de Luiz Fernando Emediato (A Grande Ilusão) e despertou-me a vontade irresistível de escrever. Na verdade, nem cheguei a ler o livro. Apenas o prefácio de José Nêumanne, falando principalmente do que é uma crônica e de como os brasileiros são mestres nesse estilo. Bem, aí larguei o livro e fui para meu próprio texto, ou minha própria tela em branco aguardando minhas palavras hesitantes. Dei a ordem para meus neurônios vasculharem meu cérebro, impulsos elétricos à caça de expressões, organizações de vocábulos que traduzam meu eu, o que estive pensando nesse intervalo de tempo conhecido como vida. As idéias vão surgindo lentamente, nem sempre organizadas, como se tivesse passado o tempo fazendo pequenas anotações em algum canto da memória para usar depois e eu vou repassando o que vivi, os sentimentos que tive até pinçar algum em especial para mergulhar fundo nele, buscando pérolas e trazendo pedras.
     Numa dessas manhãs friorentas, na estrada coberta de neblina, percebi que o capim jaraguá já está cheio de sementes e me lembrei que o capim gordura já abriu suas flores resinosas há muito tempo. Relembrei Almir Sater numa de suas belíssimas modas de viola: "Mais um verão já lá se vai a sumir por entre os dedos da minha mão e nada guardei pra mim" e tem mais Almir Sater: "Paixões que não deságuam no prazer são rios que cansei de percorrer..." O que fazer com o desejo que sinto? Meus amigos, envelhecer é acostumar-se com as derrotas. É adquirir o triste hábito de desistir. É conformar-se com a falta de perspectivas. Se há um Ser a quem rezar, eu peço a Ele que recolha minhas últimas esperanças e ilusões e lave de minha alma o cansaço. Não me importo com cabelos brancos e rugas. Só queria manter a alma inteira. Queria continuar sendo o Ronaldo que luta, que esperneia, que não se entrega. Mas não está fácil.
     Algumas coisas ficam na nossa memória, algumas frases permanecem em algum canto de nós mesmos para aflorar em momentos determinados, como se as tivéssemos colocado em um escaninho com uma etiqueta "Para ser usado em caso de emergência". Do tempo que morei em São Paulo quando vivia à caça de música de qualidade, trago a lembrança de um disco que gostaria de ter adquirido e não houve tempo devido a outras prioridades. Era a primeira metade da década de 80 e reinavam os LP's de vinil. Eu vivia freqüentando sebos e lojas de discos alternativos. Numa dessa, conheci o som de Marco Antônio Araújo, um cara cabeludo que fazia um som instrumental progressivo com guitarras, violões e violoncelos. Era um cara desconhecido do grande público. Poucos meses depois fiquei sabendo que ele havia morrido, ainda muito jovem. Lembro-me de um disco de capa escura, com um pássaro na capa. Chamava "Quando a Sorte te Solta um Cisne na Noite". Foi essa a frase que saltou da minha caixa de emergência, me instigando, me socorrendo. E eu estou aí, olhos atentos à procura do corpo branco de um cisne contrastando com o negrume da noite. Vou tocando a minha música de sedução, entoando meu grito de guerra e sussurrando benditas palavras. (Almir Sater ainda canta: "Tanto que choveu, tanto que molhou, coração se encheu de amor e transbordou. Água que correu, ribeirão levou, foi pro oceano e lá se evaporou”.)
     Ronaldo Amorim Teixeira é um homem à procura de uma esperança, à caça de um cisne. Pistas devem ser encaminhadas para ronaldoat@yahoo.com

Pensando - 18/04/2003


           Cada vez se fala mais que a educação em nosso país está cada dia pior. É comum ouvir-se críticas de todos os lados. Alunos, professores e sociedade analisam a situação e normalmente, cobra-se das outras partes a ineficiência da educação. Entre nós, adultos, a tendência é de se sobrevalorizar o nosso tempo de estudantes, nossa aplicação aos estudos, nosso silêncio em sala de aula, a autoridade (ou seria autoritarismo?) do sistema.
           Pergunto-me sempre: será que esse sistema funcionaria nos dias de hoje? Duvido. Não acredito que tenha sido a escola a mudar. O que mudou foi o mundo. E isso não vai ter retorno. Não adianta reclamar que o aluno vem muito deseducado (mal-educado?) de casa. Temos é que descobrir como trabalhar isso. As famílias estão desestruturadas mesmo e não há milagre que modifique isso. Há muitas crianças sendo criadas só pelas mães ou pelos avós. Há muitas crianças sendo criadas sozinhas em lares em que o pai e a mãe têm que trabalhar. Há muitas famílias que não sabem educar seus filhos, não sabem conseguir o respeito e nem respeitar as crianças... Obediência é um conceito inexistente na maioria das vezes.
               Trabalho como professor no ensino noturno com alunos na faixa dos dezesseis anos. É grande o número de estudantes que, por um motivo ou outro, já perdeu pelo menos um ano escolar. Quase todos estão pelo menos um pouco defasado. Muitos trabalham e estudam. A maioria não tem atração nem preocupação com o aprendizado. Parece impossível para o professor diagnosticar e sanar os problemas dos alunos. A tentativa de conscientização de que o estudo é a sua ponte para a ascensão social, ou pelo impedir uma queda, é feita todo momento e não surte efeito. Emaranhados em dificuldades pessoais, limitações e falta de interesse; vão, professores e alunos, passando o ano escolar e rendendo muito aquém das possibilidades e necessidades.
               Num dia desses, bati um papo com os alunos sobre a guerra do EUA, o imperialismo e a situação do Brasil no contexto mundial numa linguagem bem simplificada para o entendimento de todos. Milagrosamente houve bastante interesse e alguém perguntou o que é necessário para que o Brasil pague sua dívida externa. Aproveitei o gancho para falar sobre a balança comercial, blocos econômicos e globalização da economia. Tudo isso em português claro, evitando o economês. E mais uma vez, aproveitei também a oportunidade para falar da necessidade que todos, governo, população e sobretudo alunos, valorizem a educação. Só com ela poderemos revolucionar o país, torná-lo mais produtivo e competitivo. Menos corrupto e menos desperdiçador de seus recursos e de sua produção.
             Durante alguns segundos brilhou uma luz nos olhos de alguns alunos. E alguns desses eram os desinteressados... Se conseguíssemos esse entendimento da importância da educação talvez nos animaríamos mais com o país. Dá tristeza imaginar a quantidade de dinheiro que é gasto em educação atingindo resultados tão pequenos. Que sonho seria transformar o investimento em resultados! Se conseguíssemos ao menos ensinar nossos alunos sobre a necessidade de pensar a cada ato, a cada situação. Tenho a impressão de que nossos alunos acham que não precisam pensar. Ao anotar uma matéria, acham que podem conversar todos ao mesmo tempo, sem que isso impeça o aprendizado. Na verdade, acham que não precisam pensar sobre a matéria. Que o simples fato de copiar (quando o fazem) garante o dever cumprido. E que não é necessário aprender. Quando há algum exercício, é comum copiá-lo e aguardar a correção do professor. Ou buscar a resposta de um colega. Quando se dispõem a resolvê-lo querem um exemplo pronto para não precisar raciocinar. Normalmente o enunciado da questão é irresolvível para muitos, que não conseguem entender o que se pede no exercício. Parece ainda não saber que estão ali para aprender, ou se sabem, acham que aprenderão por osmose, ou por milagre.
               É nesse ponto que não conformo com a idéia da escola antiga, a escola do meu tempo. Não acho que aquela escola funcionaria hoje. Não ensinaria esses alunos a pensar, não despertaria o interesse deles. Não acredito que o poder que nossa geração tem de argumentar, questionar e avaliar as coisas tenham vindo daquele modelo educacional gerado pelo regime militar pós 64. A escola nos deu uma boa base, mas nosso desenvolvimento foi pessoal e extracurricular. Aprendemos em leituras e bate-papos, alguns em mal-afamados botequins. Aprendemos a raciocinar porque tínhamos necessidade disso. Aprendemos para poder criticar, num momento em que apenas a razão poderia justificar a crítica. Sem bons argumentos, nossos questionamentos seriam derrubados pela lógica do sistema. Hoje não. Hoje todos acham que podem e devem criticar, ou melhor, colocar defeitos e reivindicar direitos inexistentes. Não há reflexão. Não há embasamento. Há apenas a crítica pura. Já que hoje a crítica é permitida, não se desenvolvem argumentos. Apenas critica-se e nem sempre o que deve ser criticado. Talvez seja isso. Talvez o problema seja o excesso de crítica. E a ausência de autocrítica.

Roteiro para um Momento Cívico - 05/04/2003


Durante esse ano a escola em que trabalho foi intimada a fazer um "momento cívico". Acho isso babaquice, pois me lembra o meu tempo de estudante em plena vigência dos governos militares do Golpe de 64, quando se pregava o patriotismo vazio e conformista do "Brasil: Ame-o ou Deixe-o". Nessa época, o que se pretendia em nome do patriotismo era uma obediência cega, uma subserviência. Infelizmente, nos dias de hoje muitas pessoas têm saudades daquele tempo e alguns professores acham que faltam respeito e patriotismo para os alunos de hoje. Pode até ser, mas não vai ser pela força e pela obrigação que vão adquirir essas qualidades. Acho que a falta de compromisso, a rebeldia e o desinteresse dos alunos da atualidade são ainda um efeito da repressão política e da ideologia dos governos militares e sua pregação alienante. É uma efeito ainda prejudicial, mas não vai ser usando os mesmos métodos dos adeptos do golpe que vamos conseguir mudar isso.
                Bem, mesmo não concordando muito, chegou o dia em que eu e uma turma de alunos fomos responsáveis pelo fatídico momento cívico. Foi com algum sacrifício, bastante stress e algumas alegrias que nos desincumbimos da tarefa. Segue aí um roteiro da atividade. Se alguém quiser reproduzir em algum lugar, fique à vontade, não precisa citar a fonte; mas não me responsabilizo por nada...

Tema: Cidadania e Paz
Homenagem a Dona Fia, cantineira responsável pela cozinha da escola que aposentou-se nessa semana.
Leitor 01 -  Nossos dias de escola são muito significativos para nós, mesmo que nem sempre a gente perceba no dia a dia. Num futuro próximo, nos lembraremos com carinho e gratidão das horas que passamos aqui e das coisas que aprendemos. Recordaremos colegas, professores e demais funcionários da escola. Mas um canto especial de nossa memória afetiva será ocupado com pessoas também especiais que ajudaram em nosso aprendizado, que deram sustentação aos nossos dias. Queremos homenagear nesse momento as cantineiras da escola e em especial a Dona Fia, que por tanto tempo nos presenteou com seus temperos e que agora se aposentou. Como esquecer aquele cheiro que sentíamos dentro da sala de aula e que despertava nosso apetite? Como não recordar aquela comida saborosa que alimentava nosso corpo e nos dava energia para continuarmos nossas aulas? Para Dona Fia, queremos agradecer o tempo que dedicou a nós, e dizer a ela que descanse merecidamente depois de todos esses anos de trabalho. Vamos sentir saudade dela e de sua comida, mas não esqueceremos como ela aliviou nossas dificuldades com seus dons. Obrigado mais uma vez.
Fundo Musical - Jazz will eat yourself com Vanessa-Mae
Leitor 2 - O Momento cívico nos leva a refletir a nossa posição no mundo em que vivemos. Como pessoas. Como cidadãos (texto do Livro "O Cidadão de Papel de Gilberto Dimenstein)” Está aí a importância de saber direito o que é cidadania. É uma palavra usada todos os dias e tem vários sentidos. Mas hoje, significa em essência, o direito de viver decentemente. Cidadania é o direito de ter uma idéia e poder expressá-la. É poder votar em quem quiser sem constrangimento. É processar um médico que cometa um erro. É devolver um produto estragado e receber o dinheiro de volta. É o direito de ser negro sem ser discriminado, de praticar uma religião sem ser perseguido."
Leitor 3 -  (continuação do texto) Há detalhes que parecem insignificantes, mas revelam estágios de cidadania: respeitar o sinal vermelho no trânsito, não jogar papel na rua, não destruir telefones públicos. Por trás desse comportamento está o respeito pela coisa pública. O direito de ter direitos é uma conquista da humanidade. Da mesma forma que a anestesia, as vacinas, o computador, a máquina de lavar, a pasta de dentes, o transplante do coração. Foi uma conquista dura. Muita gente, muita gente lutou e morreu para que tivéssemos o direito de votar. E outros batalharam para que os jovens pudessem votar aos dezesseis anos. Lutou-se pela idéia de que todos os brasileiros merecem liberdade e de que todos são iguais perante a lei. E que a lei deve existir para proteger o mais fraco e não para privilegiar o mais forte.
Trecho do poema  "Há uma Criança na Rua" de Armando Tejada Gomez na voz de Isabel Ribeiro - Gravação do Grupo Raíces de América :
A esta hora exatamente há uma criança na rua.
É honra do homem proteger o que cresce,
Cuidar que não haja infância dispersa nas ruas
Evitar que naufrague seu coração de barco
Sua incrível aventura de pão e chocolate.
Transitar seus países de bandidos e tesouros
Colocando uma estrela no lugar da fome.
De outro modo é inútil ensaiar na terra
a alegria e o canto,
De outro modo é absurdo porque de nada vale
se há uma criança na rua ...
E a esta hora exatamente há uma criança na rua.
 Jogral com nove alunos:
·     Nesse momento crianças gritam de dor debaixo de bombardeios em Bagdá.

·     A essa hora crianças choram de fome na África.

·     A essa hora há crianças pedindo esmolas num semáforo do Rio de Janeiro,

·     crianças desnutridas num sertão brasileiro,

·     crianças doentes em pequenas cidades de Minas.
·     E a essa hora, exatamente, homens que se dizem sérios, traçam seus planos loucos em busca de mais poder, de mais dinheiro.

·     E vão semeando medo e insegurança. Vão espalhando a discórdia e a infelicidade.

·     E acreditem; esses homens ainda conseguem dormir, porque eles acham que o perigo está longe deles...
·     Mas para sorte da humanidade, em alguns lugares desse vasto mundo, nesse exato momento; com certeza, à nossa frente, em meio a vocês há pessoas que acreditam e trabalham pela paz.
 Música “A Paz" de Gilberto Gil e João Donato na voz de Zizi Possi:
A paz invadindo meu coração
De repente me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde um dia não me enterro mais.

A paz fez um mar da revolução
Invadir meu destino a paz
Como aquela grande explosão
Um bomba sobre o Japão
Fez nascer um Japão na paz.

Eu pensei em mim eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição só a guerra faz
Nosso amor em paz.

Eu vim, vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos ais.
Leitor 3 -  Com a esperança de paz no mundo e entre nós, terminamos essa hora cívica. Obrigado

        Foi isso, espero ter contribuído para a formação do civismo em que acredito, aquele que valoriza as pessoas; que quer a construção de um país. Mas um um país para seu povo e não para sua elite. E de um mundo em que a autodeterminação dos povos e das pessoas seja respeitada.

Cheiro e Imagens - 25/03/2003

        MEO A migo,
        Não. Não vou falar de guerra, apesar de achar, como muitos, a  situação absurda. Não sei se estou tomando atitudes alienadas, mas me recuso até a ver as imagens na tevê, assim como me recuso a ver programas como ratinhos e afins. É um misto de protesto silencioso e um ato de poupar a si mesmo de imagens dolorosas. Fica sempre a impressão de que a mídia tenta mostrar um espetáculo, por mais que tente se mostrar contra a guerra. Circulam por aí várias versões sobre os interesses envolvidos, mas nada justifica nada. Nova ordem mundial? Bah, velhos jogos de interesses. Por que não resolver a questão dos palestinos, dos africanos? Por que hesitaram na Boznia? Por que agora a ONU não tem voz??? Não vou falar de guerra.
        Vou falar do que enche meus olhos, do que inunda meu olfato. 
        Minha goiabeira está carregada, e não há perfume mais gostoso que o cheiro da goiaba. Há muitos anos plantei essa goiabeira em meu quintal pensando no prazer desse cheiro. Quase não comemos goiabas e quando o fazemos é preciso ter cuidado com os "recheios vivos". Quem é do interior sabe que toda goiaba que se preze tem que ter o famoso bicho-de-goiaba. ( O duro é encontrar apenas meio bicho!). Só agora na modernidade das plantações cheias de tecnologias e agrotóxicos e nos mercados das cidades grandes é que encontramos goiabas bonitas, grandes e sem bichos. Mas, engraçado, sem cheiro e sem gosto. Talvez seja a falta de um bom bicho-de-goiaba. Quando é época de florada, as flores pequenas atraem uma tal quantidade de abelhas, que é comum acordarmos mais cedo devido ao zumbido delas de madrugadinha. Na frutificação são os passarinhos, principalmente as maritacas, que batem o ponto na goiabeira. Nesse ano, plantei uma jabuticabeira. Espero estar em dia ainda para escrever sobre a primeira safra, quando vier. Fui um menino de pomar e passei muitas horas de minha infância subindo em árvores. Não me separarei delas.
        No domingo, fomos em uma reunião em Capitólio e pudemos encher a vista com a beleza do Lago de Furnas novamente cheio depois de tanta chuva. O lago já está com a sua capacidade de armazenamento ocupada em 98%, o que está fazendo com que a Usina Hidroelétrica abra suas comportas para diminuir um pouco o nível do lago. E é tanta água que a gente parece até duvidar que um dia desses estávamos sujeitos a racionamento de energia devido à falta de água. As pontes da estrada, como a do Rio Turvo já estão a pouca distância da água, faltando em torno de um metro de água para serem atingidas. Os empreendimentos turísticos se animaram novamente e estão bonitos e lotados. A Pousada do Turvo, que estava quase sem água, agora teve uma piscina construída em época de seca, completamente inundada pela água. A natureza foi generosa com essa região. Além dos lagos, as montanhas são muito bonitas. Durante o carnaval estivemos também na Serra da Babilônia em São João Batista do Glória e vimos áreas muito bonitas. Depois que assisti aos filmes "O Senhor dos Anéis" e toda aquela caminhada pelas montanhas, comecei a reparar mais nas montanhas. Imagino, há trezentos anos, índios acordando de manhã e dizendo para si mesmos : -Hoje vou caminhar até o outro lado daquela serra...
        É, não vou falar de guerra. Vou falar das coisas boas que há no mundo. Vou valorizar quem percebe a grandeza de estarmos aqui e se possível, vou presentear quem sente um pouco de falta de boas coisas... Mas não posso deixar de maldizer quem luta contra a justiça, contra a satisfação do ser humano, contra a beleza. Traidores, egoístas, propagadores de injustiças e seus asseclas: queimem-se nas consequências de seus atos! Encontrem o que merecem!

As Portas e o Vento - 24/02/2003

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas
nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite"
Clarisse Lispector

                    Sou presa fácil do vento e da tempestade, que gostam de me açoitar e me conduzir por caminhos que eu hesito em percorrer. Mas o vento, que é irmão do destino, sabe dos meus percalços e teima em mudar de direção na hora derradeira, quando o medo de caminhar já está quase vencido e a mão já se prepara para abrir as portas de aposentos conhecidos apenas em sonhos. Também hesita o vento e sou de novo lançado para o início de caminhos difíceis de percorrer. Às vezes, por um novo caminho, às vezes por caminhos já dolorosamente pisados.
                    A saudade do desconhecido que há por dentro dessas salas inacessíveis, ou do que existe dentro de meus sonhos, trazem resignação ao meu caminhar, e com passos pesados continuo na estrada, enfrentando o vento ou sendo carregado por ele. Quem sabe um dia o portal se abra...
                    Eu sei que por trás de cada porta há o seu rosto, assim como o vento também é você. Você, cujo nome não aparece, mas para quem eu escrevo. Você, cujo nome me proíbo de dizer e que, no entanto, está estampado na minha testa e na minha mente. Você, pra quem eu minto, procurando as verdades que não podem ser ditas. Mentiras que não trazem soluções, mas evitam soluços... Mensagens esquecidas em caixas de correspondências corroídas pelas tempestades. Bandeiras de intenções fustigadas pelos ventos e destruídas pelo tempo.
                    O escritor é um sofredor, pois quer resolver o mundo com palavras. Faz o período mais perfeito, usa os vocábulos mais adequados, se expressa. Mas as portas estão fechadas. Um texto não é feito só de palavras, mas do sentimento que escorre pelas mãos de quem escreve, mas não vai para o papel, muito menos para a tela fria. A chave, só quem escreve a tem. E o significado fica preso na mente do autor. Poetas devem se virar nos túmulos com nossas análises e buscas de significados. Só eles sabem o que quiseram dizer. Lançaram suas pistas, os maquiavélicos, mas o significado ficou preso em suas veias, nos seus dedos, escorreu como essência extravasada à custa das dores (não por acaso, autores comparam a atividade criadora com o parto). A busca do texto perfeito é uma futilidade. Tudo que escrevo é perfeito para mim, na hora que o faço. Nem sempre quando o leio. Às vezes, encontro mais de mim em textos alheios que leio. No entanto o que está lá? O sentimento do autor ou o sentimento meu, filtrado pelas minhas retinas, reelaborado pelo meu cérebro, fundido pelas minhas idéias?
                    Por tudo isso, não posso deixar de ser levado pelo vento, de ser arrancado das portas. Não posso deixar de ter sonhos e planos. Porque quando a tempestade amaina, eu sei que posso escrever. E venho aqui e derramo minhas queixas e lamentos. Um tanto para o leitor, mas muito mais para mim mesmo.