quarta-feira, 11 de julho de 2012

As Asas de Outubro ou Reminiscências - 16/10/2002


          Ontem comecei a escrever uma crônica com esse título e foi saindo uma coisa meio maluca, meio com e sem sentido, misturando português com inglês, mas de repente foi tomando forma e saiu uma coisa mais séria que destoou do título. Assim, substituí o título, mas a idéia continuou me perseguindo e aqui estou eu novamente, começando um texto com essa referência: Asas de Outubro.
           Não sei bem sobre o que queria escrever e o que, diabos, quer dizer essas asas. Tenho uma vaga lembrança de não saber se foram os ventos de Agosto, as chuvas extemporâneas de setembro ou as queimadas de outubro que despertaram esse desejo de voar (uma fumaça diversa cobre agora os céus de nossa cidade). Houve uma época em que cismei de sonhar toda noite que estava voando e alguém me disse que significava que estava conseguindo conquistar algo. Talvez seja esse desejo de conquista, de alçar vôos que me contamina e me faça desejar ter asas em Outubro.
           Há também uma vaga lembrança de falar de Jerry Lee Lewis incendiando o piano e tocando a música "Great Balls of Fire" e ela nem é a primeira. Ele e eu devemos estar malucos, cometer imprudências aos quarenta (eu aos quarenta e dois). Parece New Kids on The Block infernizando convicções. Parece a seleção brasileira de voley bloqueando a rede. Parece uma vontade de deitar na rede e docembalançar na varanda, como colo de mãe, como teu colo. Parece uma vontade de ouvir Beto Guedes, alma de borracha, amor de índio, cruzada e olhos de jade. Doces olhos de jade, não verdes, castanhos, morenos. Cavalos disparados, galopes rasantes carregando paixões e solidões. E arrastando fardos, lembranças, riscando campos de flores. Uma ópera-rock, meia dúzia de rocks -rurais. E uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz. E ipês, quaresmeiras e jacarandás. E pitangas, jaboticabas e uvaias. E escrever com a ponta do canivete em caroços de abacate para ver o traço aparecer mais forte e vivo enquanto o tempo passa. Tatuar meu nome no caroço do abacate, tatuar um beijo. Escrever fundo minha marca em seu coração. Tatuar asas em minhas costas sonhando/esperando que elas cresçam como num conto de Gabo Garcia Marquez. Abrir dicionários para procurar palavras que traduzam minha pessoa, você, nós. Palavras que desatem nós. Ou que os atem mais. Bilhetes entreescritos, entrevistos, entregados... Copiados de antigos cadernos, A ânsia de tornar nossas as palavras dos outros. O desejo de comunicar sem saber como. E as línguas presas, as bocas fechadas, as palavras proibidas... Escrever o menor conto do mundo, menor que os hai-kai, mas que seja o mais abrangente de todos. Que possua a imensidão dos sentimentos e distância abissal da separação Que possua uma só palavra, mas que diga tudo. E se essa palavra não existir, inventá-la. Como o neologismo de Manuel Bandeira: Teadoro, Teodora.
           Eu devo estar maluco. Haverá quem decifre a esfinge? Haverá resposta para os enigmas? Haverá "Return to Innocence" ? Restará alguma coisa do nonsense? São muitas dúvidas? Esta é a sina do ser humano. Quem sou, onde estou, para onde vou. Dúvidas em curtas frases? Dúvidas, encurtas frases? Duvidas em curtas frases? Retórica, armadilhas verbais, arapucas orais (cuidado com o que falas! Com quem andas, aonde vais). E eu pagando pelos erros, que eu nem sei se cometi (all right Paralamas).

           Paralelepípedos e pára-choques. Pedras no meio do caminho. Ah, Drummond. Parece que 90% de concreto na alma é pouco para os dias de hoje. Devia ir para Itabira. 90% de ferro parece ser mais eficiente. Mais forte para os dias de hoje. Pedras no meio do caminho. Poderiam ser pepitas. Quem sabe sejam? Rubis, esmeraldas e ametistas. Quem sabe assombrações: lobisomens, bruxas e sacis? Vassouras e carapuças em vez das asas de outubro. Dragões, falcões? Meus cães com nomes de pássaros passaram voando por aqui. A vida passa em vôo livre. Num desses outubros minhas asas crescem...

Ronaldo Amorim Teixeira pode ter pirado ou então está apenas passando por uma crise de reminiscências. Aguarde a semana que vem para saber.

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